Decisão · Explicador

Como acumular milhas: as quatro fontes e quanto cada uma rende

Por Redação Farol das Milhas · Brasil · Leitura de 11 minutos

Quatro moedas de latão empilhadas sobre carta náutica em mesa navy fosca, luz âmbar rasante de um lado e névoa azulada ao fundo

Acumular milha parece uma atividade só, e são quatro fontes distintas. Voo, cartão de crédito, programa de pontos de banco e parceiro de compra creditam pontos por lógicas diferentes, com retornos que vão de cerca de 1% a quase 20% do valor gasto.

Nós medimos as quatro com a mesma régua: quanto de valor em milha cada real gasto devolve. A régua precisa de uma referência, e a referência vem da emissão que você faria de verdade.

Premissa declarada e ilustrativa deste texto: um milheiro que vale R$ 32 na emissão pretendida, R$ 4.200 de gasto mensal no cartão e o dólar de referência a R$ 5,50, valor que você troca pela cotação do dia.

A régua: valor creditado dividido pelo real gasto

Uma fonte de acúmulo só existe em comparação com outra. Converta o crédito de cada uma em reais pelo milheiro da sua emissão e divida pelo gasto que gerou o crédito.

Com o milheiro a R$ 32, mil pontos valem R$ 32 e um ponto vale R$ 0,032. Cada fonte vira então um percentual do gasto, e os quatro percentuais ficam na mesma escala.

A ordem que encontramos contraria a ordem da popularidade: parceiro de compra primeiro, voo em seguida, programa de pontos de banco em terceiro e cartão de crédito por último.

A inversão tem explicação simples. As fontes que mais rendem por real dependem de um gasto que você já faria de qualquer forma, e a que menos rende depende de um produto que cobra para existir. Volume alto e retorno alto quase nunca moram na mesma fonte.

Parceiro de compra: perto de 19%, com uma armadilha de preço

Os programas mantêm uma vitrine de lojas parceiras que creditam pontos por real gasto. A multiplicação é agressiva: a faixa indicativa vai de 2 a 10 pontos por real, muda por loja e por período, e a regra vigente aparece na própria página da parceria.

Tome 6 pontos por real numa compra de R$ 800. São 4.800 pontos, ou R$ 153,60 pela nossa régua, o que dá 19,2% do gasto. Nenhuma outra fonte chega perto.

A armadilha mora no preço da loja. Se a parceira cobra 10% a mais que a concorrente, os R$ 80 de sobrepreço derrubam o retorno para 9,2%. Compare o preço final antes de olhar para o multiplicador.

Voo: cerca de 6% da tarifa, e a família tarifária manda

Voar credita pontos, e o crédito depende da família tarifária comprada, não apenas do valor pago. Tarifa promocional credita pouco, tarifa flexível credita mais, e cada programa publica a tabela de acúmulo no próprio regulamento.

Numa faixa indicativa de 1 a 4 pontos por real da tarifa, use 2 como referência. Um trecho de R$ 680 credita 1.360 pontos, ou R$ 43,52, perto de 6,4% da tarifa.

O percentual é bom e o volume é pequeno. Quem voa quatro vezes por ano acumula em voo menos do que gasta no cartão em um único mês.

Vale conferir a tabela antes de comprar a passagem. A diferença entre duas famílias tarifárias na mesma poltrona pode dobrar o crédito por um acréscimo pequeno na tarifa paga.

Programa de pontos de banco: o mesmo gasto valendo o dobro

O programa de pontos do banco recebe o gasto do cartão e encaminha o saldo ao programa aéreo por transferência. O ganho não está no acúmulo, está na transferência bonificada, que multiplica o saldo antes da emissão.

Com bônus na faixa que os programas costumam divulgar, o mesmo mês de R$ 4.200 pode chegar ao programa aéreo com o dobro de milhas. O retorno sai de 1,16% e encosta em 2,3%.

A contrapartida é rigidez. Ponto transferido não volta, e o percentual vigente muda a cada rodada, sempre descrito na página oficial de transferências do programa.

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Cartão de crédito: 1,16% e a anuidade que exige R$ 60 mil por ano

O cartão é a fonte mais divulgada e a que menos rende por real gasto. Com 2 pontos por dólar e o câmbio da nossa premissa, R$ 4.200 viram 1.527 pontos, ou R$ 48,87. Sobre o gasto, 1,16%.

Agora entra a anuidade. Cartões com acúmulo relevante cobram na faixa de R$ 400 a R$ 1.200 por ano, valor que muda por banco e por categoria, e que consta no contrato do produto.

A R$ 700 de anuidade e 1,16% de retorno, o ponto de equilíbrio fica perto de R$ 60 mil de gasto anual, ou R$ 5.000 por mês. Abaixo desse volume, o cartão consome mais do que devolve.

As fontes que ficam de fora da lista dos quatro

Existem outras portas de entrada de saldo, e nenhuma delas se sustenta como fonte principal. Todas servem de complemento, com o mesmo cálculo aplicado.

A compra direta de milhas em promoção é a mais usada. Ela só faz sentido quando o custo do milheiro comprado fica abaixo do valor de uso da emissão pretendida. Com a premissa deste texto, um milheiro que vale R$ 32 na emissão precisa ser comprado abaixo de R$ 32 para a conta fechar, e o cálculo tem que incluir a taxa de emissão, que entra depois e some da propaganda.

O clube de assinatura credita uma quantidade fixa por mês em troca de mensalidade. O retorno se lê dividindo o valor mensal pela quantidade creditada: se a mensalidade é R$ 90 por mil pontos, o milheiro sai a R$ 90, quase três vezes o valor de uso da nossa premissa. O que costuma justificar o clube não é o crédito, é o benefício acessório de suspender a expiração do saldo enquanto ativo.

Hotel e locadora de veículos creditam pontos por diária ou por reserva, com faixas que mudam por parceria e por período. O volume é pequeno e o crédito é real, então vale cadastrar o número do programa antes de reservar, o que leva um minuto e não custa nada.

Cashback convertido em pontos é o caso mais silencioso. Alguns programas permitem transformar saldo de cashback em milhas com bonificação, e o retorno depende exclusivamente da taxa de conversão vigente. Aplique a régua: valor creditado em reais dividido pelo cashback consumido.

Por fim, a compra em portal de viagens do próprio programa multiplica pontos e costuma cobrar sobrepreço na tarifa. É a mesma armadilha da vitrine de parceiros, e se resolve do mesmo jeito: compare o preço final antes do multiplicador.

O saldo perdido entre uma etapa e outra

Acumular é metade do trabalho. A outra metade é fazer o saldo sobreviver até a emissão, e três vazamentos silenciosos derrubam o resultado.

O primeiro é a expiração. Prazos costumam variar de 12 a 36 meses conforme o programa, e o valor vigente está no regulamento. Saldo vencido custa 100% do que foi acumulado, o que transforma a melhor taxa de retorno do mundo em zero.

O segundo é o saldo fragmentado. Pontos espalhados entre dois programas aéreos e um programa de banco raramente somam o suficiente para uma emissão, e cada bolso pequeno vence sozinho. A correção é escolher um destino principal de acúmulo e consolidar lá, aceitando perder alguma bonificação eventual em troca de chegar à emissão antes do relógio.

O terceiro é a transferência feita cedo demais. Ponto transferido do banco para o programa aéreo não volta, e passa a correr contra o prazo do programa de destino, que costuma ser mais curto. A regra prática: transferir apenas quando a emissão já estiver definida, com data e assento disponíveis na tela.

Some a esses três o custo de oportunidade de deixar saldo parado. Milha não rende juros, e um saldo grande esperando dois anos perde valor conforme as tabelas de resgate são atualizadas.

Linha do tempo do acúmulo de milhas

  1. 1981A American Airlines lança o AAdvantage, considerado o primeiro programa moderno de fidelidade aérea, e cria a lógica de creditar pontos por trecho voado.
  2. 1994A Varig lança o Smiles, primeiro programa de milhas de uma companhia brasileira.
  3. 2007A Gol assume o Smiles na compra da Varig, e o programa passa a acompanhar a malha da nova controladora.
  4. 2009Nascem a Multiplus, criada pela TAM como empresa de fidelidade com capital próprio, e o TudoAzul, da Azul, num movimento que separou a fidelidade da operação aérea.
  5. 2016Banco do Brasil e Bradesco criam a Livelo como empresa conjunta de pontos, e a transferência bonificada entre banco e programa aéreo vira o principal motor de acúmulo do país.
  6. 2020A Latam comunica a saída da aliança Oneworld e passa a operar sua rede de resgates por acordos bilaterais.

Veredicto: comece pela ponta que ninguém divulga

Para quem gasta menos de R$ 5.000 por mês no cartão, a conta não fecha no acúmulo: R$ 700 de anuidade contra menos de R$ 590 de valor gerado ao longo de doze meses.

Para quem roteia compras já planejadas pela vitrine de parceiros sem pagar sobrepreço, a conta fecha com folga: 19,2% de retorno contra 1,16% do cartão puro, no mesmo real gasto.

A sequência prática inverte o hábito da maioria. Primeiro a vitrine de parceiros, depois o voo que você já faria, depois a transferência bonificada e só então a anuidade. Nós calculamos. Você decide.

Perguntas frequentes

Qual a forma mais rentável de acumular milhas?

Pela régua de valor creditado sobre real gasto, a vitrine de lojas parceiras lidera com folga, perto de 19,2% na nossa premissa, desde que a loja não cobre sobrepreço. O cartão de crédito, que é a fonte mais divulgada, fica em último, em torno de 1,16% antes da anuidade.

Cartão com anuidade compensa para juntar milhas?

Depende do volume de gasto. Com 1,16% de retorno e anuidade de R$ 700, o ponto de equilíbrio fica perto de R$ 60 mil por ano, ou R$ 5.000 por mês. Abaixo desse volume, a conta não fecha: o cartão consome mais em anuidade do que devolve em pontos.

O que é transferência bonificada?

É a promoção em que o programa de pontos do banco multiplica o saldo enviado ao programa aéreo. Ela é o principal ganho da etapa bancária, porque o mesmo gasto pode chegar ao destino com o dobro de milhas. A contrapartida é que ponto transferido não volta.

Quando devo transferir os pontos do banco para a companhia aérea?

Quando a emissão já estiver definida, com data e assento disponíveis na tela. Transferir cedo demais coloca o saldo para correr contra o prazo do programa de destino, que costuma ser mais curto que o do banco, e elimina a flexibilidade de escolher outro parceiro depois.

Comprar milhas em promoção vale a pena?

Vale quando o custo do milheiro comprado fica abaixo do valor de uso da emissão pretendida, incluindo a taxa de emissão no cálculo. Na premissa deste texto, com milheiro valendo R$ 32 no resgate, comprar acima de R$ 32 significa pagar mais caro pelo mesmo bilhete.

Vale a pena assinar clube de milhas?

Como fonte de acúmulo, raramente: o milheiro de clube costuma sair bem acima do valor de uso. O que costuma justificar a assinatura é o benefício acessório de suspender a expiração do saldo enquanto o clube estiver ativo, principalmente para quem acumula devagar e emite alto.

Voar credita muitas milhas?

Credita um bom percentual da tarifa, perto de 6,4% na nossa referência, e num volume pequeno. Quem voa quatro vezes por ano acumula menos em voo do que no cartão em um único mês. Vale conferir a tabela de acúmulo por família tarifária antes de comprar, porque a diferença de crédito entre duas tarifas na mesma poltrona pode ser grande.

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