Decisão · Comparativo

Programa de milhas: qual deles serve o seu perfil de viagem

Por Redação Farol das Milhas · Brasil · Leitura de 11 minutos

Três bússolas de latão lado a lado sobre mapa dobrado em mesa navy fosca, luz âmbar quente de um lado e fundo em névoa azulada

Programa de milhas se escolhe por encaixe, não por marca. O encaixe sai do cruzamento entre o jeito que você viaja e três critérios que quase nunca aparecem na comparação: rede de parceiros, custo de emissão e validade do saldo.

Smiles, Latam Pass e TudoAzul operam sob regulamentos públicos, e os três diferem em cada um dos critérios. Nós comparamos critério a critério e depois encaixamos os perfis, sem eleger vencedor.

Premissa declarada e ilustrativa deste texto: R$ 6.500 de gasto mensal num cartão que credita 0,3 ponto por real, o que dá 23.400 pontos por ano, contra uma emissão-alvo de 65.000 milhas.

Três critérios decidem, e ranking não é um deles

Ranking de programa envelhece em semanas, porque tabela de resgate, bonificação e parceria mudam por decisão da companhia. Critério envelhece devagar, e serve de base justamente por durar.

Os três que importam: para onde o saldo consegue voar, quanto custa transformar saldo em bilhete e quanto tempo o saldo sobrevive parado. Qualquer comparação que ignore os três compara marketing.

Cada perfil é dominado por um critério diferente. Quem voa muito sente o custo de emissão, quem viaja longe sente a rede de parceiros, quem acumula sem voar sente a validade.

Rede de parceiros: aliança global contra acordo bilateral

Um programa ligado a uma aliança global oferece resgate no quadro inteiro de companhias associadas, publicado pela própria aliança. Um programa que trabalha por acordos bilaterais concentra as opções nas empresas com quem assinou contrato.

A diferença é de registro público. A Latam anunciou em 2020 a saída da aliança Oneworld, em comunicado da própria companhia, e passou a operar por acordos bilaterais. Gol e Azul não figuram nos quadros de associadas das três grandes alianças globais, também publicados por elas.

Na prática, a rede se lê de trás para frente: liste os destinos que você quer nos próximos dois anos e confira quais deles aparecem na lista de parceiras vigente de cada programa.

Custo de emissão e validade: os dois números do rodapé

Além da taxa de embarque, alguns programas cobram taxa própria de emissão por bilhete, que vai de zero a algumas dezenas de reais conforme o programa, o canal e a categoria do cliente. O valor vigente está na tabela publicada por cada um.

A validade segue a mesma lógica. Os prazos costumam variar de 12 a 36 meses, e assinaturas de clube costumam suspender a expiração enquanto ativas. A faixa é indicativa e o prazo vigente está no regulamento.

Os dois números parecem pequenos e não são. Duas emissões por ano com taxa de R$ 55 custam R$ 110 fora da tarifa, e um saldo vencido custa 100% do que você acumulou.

Voo doméstico frequente: a malha pesa mais que a rede

Quem voa toda semana acumula pela companhia que atende os aeroportos da rotina, e a escolha se resolve antes de qualquer tabela. Malha ruim não se compensa com programa bom.

Nesse perfil, o crédito por trecho depende da família tarifária e da categoria de cliente, ambas descritas no regulamento do programa. O volume de emissões por ano transforma a taxa de emissão no critério que mais dói.

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Internacional esporádico: a parceria decide a emissão

Quem viaja para fora a cada um ou dois anos acumula devagar e emite alto. O saldo tem que alcançar uma rota longa, então a lista de parceiras vale mais que qualquer outro critério.

O caminho comum nesse perfil não é acumular direto no programa aéreo, e sim acumular no programa de pontos do banco e escolher o destino da transferência quando a viagem estiver definida. A flexibilidade de escolher depois é o ativo.

A validade também pesa, porque o saldo fica parado por muitos meses. Confira o prazo do programa de origem e o do destino antes de decidir onde o saldo espera.

Acúmulo por cartão sem voar: 23.400 pontos contra o relógio

Volte à premissa. A R$ 6.500 por mês e 0,3 ponto por real, o acúmulo chega a 23.400 pontos por ano, e a emissão-alvo de 65.000 milhas exige quase três anos de gasto.

Agora cruze com a validade. Se o prazo do programa fica na ponta baixa da faixa de 12 a 36 meses, os pontos do primeiro ano vencem antes de a emissão acontecer. O critério que decide esse perfil é a validade, e nem a rede nem a taxa entram na conversa.

Duas saídas cabem: acumular no programa de pontos do banco, cujo prazo costuma ser mais longo, ou assinar um clube que suspenda a expiração enquanto ativo, somando a mensalidade ao custo do saldo.

O custo do milheiro: o número que torna tudo comparável

Comparar programa por programa sem uma unidade comum é comparar sensação. A unidade que resolve chama-se custo do milheiro, o quanto você pagou por mil milhas ou mil pontos.

A fórmula tem duas versões, e as duas são simples. Quando você compra pontos, o custo do milheiro é o valor total pago dividido pela quantidade de milhas recebidas, multiplicado por mil. Quando você acumula por gasto no cartão, o cálculo é diferente e menos intuitivo: o custo do milheiro é a anuidade anual dividida pelas milhas geradas no ano, também multiplicada por mil, porque o gasto em si você faria de qualquer forma.

Aplique à premissa declarada no começo do texto. Com R$ 6.500 mensais e 0,3 ponto por real, o ano fecha em 23.400 pontos. Se a anuidade do cartão custa R$ 700, o custo do milheiro sai em torno de R$ 30. Se a anuidade custa R$ 1.200, ele sobe para cerca de R$ 51.

Do outro lado da conta está o valor de uso, que é o preço da passagem em dinheiro dividido pelas milhas exigidas no resgate, multiplicado por mil. Um bilhete de R$ 3.900 que sai por 65.000 milhas mais R$ 120 de taxa entrega valor de uso próximo de R$ 58 por milheiro.

Com os dois números na mesa, o veredicto aparece sozinho. Valor de uso acima do custo do milheiro, a conta fecha. Valor de uso abaixo, a conta não fecha, e o bilhete comprado em dinheiro sai mais barato que o resgate.

Tabela fixa e tabela dinâmica: o detalhe que muda o cálculo

Existem dois modelos de precificação de resgate, e o cálculo do milheiro só é estável em um deles.

No modelo de tabela fixa, o programa publica quantas milhas custa cada rota ou cada região, e o número não muda com a demanda do voo. A vantagem é a previsibilidade: você sabe hoje quanto precisará acumular, e o planejamento de dois anos faz sentido. A desvantagem é a disponibilidade, porque a companhia libera um número limitado de assentos naquela tarifa de resgate, e a data desejada pode simplesmente não ter vaga.

No modelo de tabela dinâmica, a quantidade de milhas acompanha o preço do bilhete em dinheiro. A vantagem é que quase sempre existe assento disponível, já que qualquer poltrona à venda pode ser paga com saldo. A desvantagem é que o valor de uso vira uma constante disfarçada: se o programa converte milhas em reais numa taxa fixa, resgatar em alta temporada deixa de ser um bom negócio, porque o preço em milhas sobe junto com o preço em dinheiro.

A leitura prática é direta. Em tabela fixa, o ganho vem de encontrar disponibilidade em rota cara. Em tabela dinâmica, o ganho vem de comprar milhas barato em promoção e usar quando o valor de uso superar o custo do milheiro.

Antes de escolher onde acumular, confirme no regulamento vigente qual modelo o programa aplica para o tipo de voo que você pretende resgatar. O mesmo programa pode usar regras diferentes para voos próprios e para voos de parceiras.

Linha do tempo dos programas de fidelidade

  1. 1981A American Airlines lança o AAdvantage, considerado o primeiro programa moderno de fidelidade aérea, e cria o modelo que a indústria copiaria pelas quatro décadas seguintes.
  2. 1994A Varig lança o Smiles no Brasil, primeiro programa de milhas de uma companhia brasileira.
  3. 2007A Gol assume o Smiles na compra da Varig, e o programa passa a operar ligado à malha da nova controladora.
  4. 2009Nascem a Multiplus, criada pela TAM como empresa de fidelidade com capital próprio, e o TudoAzul, programa da Azul.
  5. 2016Banco do Brasil e Bradesco criam a Livelo como empresa conjunta de pontos, e o mercado de coalizão bancária ganha escala no país.
  6. 2020A Latam comunica a saída da aliança Oneworld e passa a operar sua rede de resgates por acordos bilaterais.

Veredicto: escolha o critério, o programa vem depois

Para quem voa doméstico com frequência, a conta fecha no programa da companhia que domina a sua malha, com a taxa de emissão como desempate entre duas opções parecidas.

Para quem acumula por cartão sem voar e mira 65.000 milhas com 23.400 pontos por ano, a conta não fecha dentro de um programa aéreo de validade curta: o saldo vence antes da viagem.

Escolha o critério dominante do seu perfil, leia a regra vigente no regulamento dos dois ou três programas candidatos e decida com a lista na frente. Nós calculamos. Você decide.

Perguntas frequentes

Qual é o melhor programa de milhas do Brasil?

A pergunta não tem resposta única, porque o critério dominante muda com o perfil. Quem voa doméstico com frequência decide pela malha da companhia; quem viaja para fora esporadicamente decide pela rede de parceiras; quem só acumula por cartão decide pela validade do saldo. Ranking de programa envelhece em semanas; critério dura.

Vale a pena juntar milhas se eu não voo?

Depende da relação entre acúmulo e validade. Com a premissa deste texto, R$ 6.500 mensais e 0,3 ponto por real geram 23.400 pontos ao ano, e uma emissão de 65.000 milhas exige quase três anos. Em programa de validade curta, a conta não fecha: o saldo do primeiro ano vence antes da viagem.

Como saber quanto vale a minha milha?

Divida o preço da passagem em dinheiro pela quantidade de milhas exigida no resgate e multiplique por mil. O resultado é o valor de uso por milheiro. Compare com o custo do milheiro, que é o que você pagou por mil milhas. Valor de uso maior que custo, o resgate compensa.

Milhas expiram?

Na maior parte dos programas, sim. Os prazos costumam variar de 12 a 36 meses, e o número vigente está no regulamento de cada programa. Assinaturas de clube costumam suspender a expiração enquanto estiverem ativas, e a mensalidade precisa entrar na conta do custo do saldo.

É melhor acumular no programa aéreo ou no do banco?

Para quem já sabe onde vai voar, acumular direto no programa aéreo evita perdas na transferência. Para quem ainda não decidiu o destino, acumular no programa de pontos do banco preserva a flexibilidade de escolher o parceiro depois, e o prazo de validade costuma ser mais longo.

Taxa de emissão é a mesma coisa que taxa de embarque?

Não. A taxa de embarque é cobrada pelo aeroporto e existe em qualquer bilhete. A taxa de emissão é cobrada por alguns programas para transformar saldo em passagem, varia de zero a algumas dezenas de reais conforme o canal e a categoria do cliente, e some da conta de quem compara programas por tabela de resgate apenas.

Qual a diferença entre tabela fixa e tabela dinâmica?

Na tabela fixa, o programa publica quantas milhas custa cada rota, e o número não acompanha a demanda, com disponibilidade limitada de assentos. Na tabela dinâmica, o custo em milhas acompanha o preço em dinheiro, quase sempre há assento, e o ganho passa a depender de comprar milhas abaixo do valor de uso.

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