Decisão · Cartão

Melhor cartão para milhas: o método das quatro variáveis

Por Redação Farol das Milhas · Brasil · Leitura de 11 minutos

Sextante de latão sobre mesa azul profundo de superfície fosca, luz âmbar baixa de um lado e névoa sobre o mar ao fundo

Cartão de milhas não tem campeão absoluto. Existe o cartão certo para um extrato específico, e o produto que rende bem para quem gasta alto todo mês destrói valor para quem gasta um terço.

A comparação que circula em ranking costuma olhar uma variável só, quase sempre a pontuação por dólar. Quatro variáveis decidem o resultado, e três delas dependem de você, não do cartão.

Nós montamos o método e rodamos em dois perfis opostos, com as mesmas premissas nos dois lados.

Variável 1: quantos pontos cada real da fatura gera

A pontuação é anunciada por dólar e a sua fatura é em real. A conversão é o primeiro passo do método: divida os pontos por dólar pelo dólar de conversão previsto no contrato e você tem pontos por real.

Premissa declarada e ilustrativa para o artigo inteiro: dólar de conversão a R$ 5,15 e o milheiro avaliado em R$ 26, valor que sai de uma emissão doméstica comum. Refaça com a sua rota, porque o valor do milheiro é pessoal.

Os dois cartões da comparação: o cartão sem anuidade pontua 1,0 ponto por dólar e não cobra nada; o cartão pago pontua 2,4 pontos por dólar e cobra R$ 1.240 por ano. A pontuação praticada no mercado brasileiro vive numa faixa ampla, a faixa se move, e a régua exata do seu produto está no contrato publicado pelo banco.

Variável 2: a anuidade traduzida em pontos por ano

Anuidade é custo certo e ponto é benefício provável. Para comparar os dois na mesma unidade, divida a anuidade pelo valor do seu milheiro: R$ 1.240 divididos por R$ 26 dão 47.700 pontos por ano apenas para empatar.

O tamanho do número costuma surpreender quem nunca fez a conta, e explica por que a anuidade é a variável mais pesada do método. Ela é cobrada com gasto alto e com gasto baixo, sem proporcionalidade nenhuma.

Considere as isenções antes de cravar o custo. Parte dos bancos reduz ou dispensa a anuidade por volume de investimento, por gasto mínimo mensal ou por acordo de retenção, e a regra vigente está no contrato do seu produto.

Variável 3: o benefício que entra na conta é o que você usa

Liste os benefícios do cartão e risque todos que você não usou nos últimos doze meses. O que sobrar recebe um valor em reais equivalente ao que você pagaria por ele separadamente.

Sala de espera usada quatro vezes no ano tem valor. Sala de espera que você nunca acessou vale zero, mesmo aparecendo em destaque no material do banco. Seguro de viagem entra na conta apenas se você deixou de contratar um seguro por causa dele.

O resultado da etapa é um número em reais que entra do lado do benefício e reduz o peso da anuidade na comparação.

Variável 4: para onde o ponto pode sair

Ponto preso vale menos que ponto livre. Um cartão que pontua em programa de banco com vários parceiros aéreos permite escolher o destino no dia da emissão, comparando as tabelas de resgate de cada programa.

Um cartão que deposita direto num único programa aéreo elimina uma etapa e fixa o destino. Se a tabela daquele programa piorar na sua rota, o saldo não muda de lado.

Considere ainda o bônus de transferência, que existe apenas no primeiro caminho. Percentual, prazo e teto variam por campanha e estão no regulamento publicado pelo programa, sempre como faixa que se move.

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Perfil A: R$ 3.200 por mês

Gasto anual de R$ 38.400, ou 7.456 dólares na nossa premissa. No cartão sem anuidade, 7.456 pontos no ano, valor de R$ 194, sem custo nenhum do outro lado.

No cartão pago, 17.895 pontos, valor de R$ 465, contra R$ 1.240 de anuidade: resultado negativo de R$ 775 no ano.

A distância entre os dois passa de R$ 960 em favor do cartão sem anuidade. Nenhum benefício de material publicitário cobre a diferença para quem voa pouco, e é justamente o perfil que mais compra cartão premium por indicação de ranking.

Perfil B: R$ 18.000 por mês

Gasto anual de R$ 216.000, ou 41.942 dólares. No cartão sem anuidade, 41.942 pontos, valor de R$ 1.090.

No cartão pago, 100.660 pontos, valor de R$ 2.617, menos a anuidade de R$ 1.240: sobram R$ 1.377. A vantagem do cartão pago é de cerca de R$ 287 no ano, antes de contar os benefícios usados.

O ponto de cruzamento entre os dois produtos, com as nossas premissas, fica perto de R$ 14.600 de gasto mensal. Abaixo desse patamar o cartão sem anuidade ganha, acima dele o pago assume a frente.

O que o contrato esconde da variável 1

A pontuação por dólar é o número do anúncio. O contrato tem três cláusulas que mexem no resultado e não aparecem em ranking nenhum.

A primeira é a taxa de conversão. Parte dos emissores converte a fatura em real para dólar pela cotação de fechamento do dia da compra, e parte usa uma cotação de referência própria, revisada periodicamente. A diferença entre as duas muda diretamente quantos pontos cada real gera, e a regra está no contrato do produto, não no material de divulgação.

A segunda é a lista de gastos que não pontuam. Pagamento de boleto, tributos, transferências, saques, recargas e compra de moeda estrangeira costumam ficar de fora, em maior ou menor grau conforme o emissor. Quem paga uma parcela relevante da vida em boleto pelo cartão precisa recalcular a variável 1 com o gasto que efetivamente pontua, e não com o total da fatura.

A terceira é o teto. Alguns produtos limitam a quantidade de pontos creditados por mês ou por ciclo. Em fatura alta, o teto transforma um cartão de pontuação generosa em um cartão de pontuação média, e o efeito só aparece meses depois, quando o extrato de pontos não bate com a conta feita na contratação.

O procedimento que resolve leva dez minutos: abra o contrato vigente, procure as três cláusulas e recalcule a variável 1 com o gasto que pontua de verdade. É a etapa que mais muda o resultado final do método, e é a que quase ninguém faz.

Isenção de anuidade: as quatro portas

A anuidade é a variável mais pesada do método, e ela é negociável com mais frequência do que o material do banco sugere. Existem quatro caminhos conhecidos, e todos dependem de regra publicada no contrato do produto.

O primeiro é o volume de investimento. Boa parte dos bancos dispensa ou reduz a anuidade para clientes com determinado saldo aplicado na instituição. Antes de comemorar, calcule o custo de oportunidade: se o investimento exigido rende menos do que renderia em outro lugar, a diferença é o preço real da anuidade "isenta".

O segundo é o gasto mínimo mensal. O produto devolve parte ou toda a anuidade quando a fatura ultrapassa um valor definido. É a porta mais perigosa, porque induz gasto: comprar R$ 2.000 a mais para economizar R$ 100 de anuidade é um péssimo negócio disfarçado de benefício.

O terceiro é a retenção. Pedido de cancelamento costuma acionar uma equipe com autonomia para oferecer isenção temporária ou desconto. A conversa é legítima e o resultado precisa ser confirmado por escrito, com prazo definido, no canal oficial.

O quarto é a folha de pagamento ou o relacionamento institucional, com regras próprias por convênio.

Some sempre o custo real depois da porta escolhida e volte à variável 2. Anuidade zero muda o ponto de cruzamento do método por inteiro: sem os R$ 1.240 anuais, o cartão pago da nossa premissa passa a vencer em qualquer faixa de gasto.

A quinta variável: o gasto que o cartão induz

O método tem quatro variáveis mensuráveis e uma quinta que nenhuma planilha captura sozinha: quanto o programa de pontos altera o seu comportamento de compra.

O efeito é conhecido e documentado no varejo. Programa de recompensa aumenta a frequência de uso do meio de pagamento associado, e parte desse aumento é gasto que não existiria sem a recompensa. Cada real gasto a mais devolve, na melhor premissa deste texto, algo em torno de 2% em valor de milha. Os outros 98% saíram do seu bolso.

O sinal de alerta é fácil de reconhecer. Se a frase "vale a pena, ainda ganho pontos" já apareceu numa decisão de compra sua, a quinta variável está ativa, e ela é maior que a diferença entre o melhor e o pior cartão da comparação.

A correção também é simples e não exige disciplina heroica: compare o gasto médio mensal dos doze meses anteriores à contratação do cartão de pontos com o dos doze meses seguintes. Se subiu de forma consistente sem mudança de vida que explique, o programa está custando dinheiro em vez de gerar valor.

Veredicto: o cartão certo está no seu extrato

Rode o método com o seu número: gasto real dos últimos doze meses, pontuação do contrato, anuidade vigente e benefícios efetivamente usados. Quatro entradas, quinze minutos, uma decisão que dura anos.

Com R$ 3.200 por mês, a conta não fecha para o cartão pago da nossa premissa: R$ 775 negativos no ano contra R$ 194 positivos do sem anuidade. Com R$ 18.000 por mês a ordem se inverte, e a margem continua estreita, R$ 287 em doze meses.

A margem estreita é a mensagem principal. A diferença entre o melhor e o pior cartão para o seu extrato é menor que a diferença entre gastar e não gastar. Nós calculamos. Você decide.

Perguntas frequentes

Qual o melhor cartão de milhas?

O que vence no seu extrato. Com as premissas deste texto, o ponto de cruzamento fica perto de R$ 14.600 de gasto mensal: abaixo dele o cartão sem anuidade rende mais, acima dele o cartão pago assume a frente. Ranking que ignora o seu volume de gasto compara produtos, não decisões.

Cartão sem anuidade vale a pena para milhas?

Vale, e para a maioria das faturas. No perfil de R$ 3.200 por mês, ele entrega R$ 194 de valor no ano contra um resultado negativo de R$ 775 do cartão pago. A ausência de custo fixo é o que sustenta a vantagem, porque a anuidade é cobrada independentemente do quanto você usa.

Quantos pontos preciso gerar para pagar a anuidade?

Divida a anuidade pelo valor do seu milheiro. Com R$ 1.240 de anuidade e milheiro a R$ 26, são 47.700 pontos por ano só para empatar. É a conta que mais surpreende quem nunca a fez, e a que melhor explica por que cartão premium destrói valor em fatura pequena.

Como calcular quantos pontos por real o cartão gera?

Divida a pontuação por dólar pela taxa de conversão do contrato. Com 2,4 pontos por dólar e dólar de conversão a R$ 5,15, cada real gera cerca de 0,47 ponto. Depois refaça a conta usando apenas o gasto que pontua, excluindo boleto, tributos e transferências quando o contrato os deixar de fora.

Vale a pena pagar anuidade para ter sala de espera?

Só se você usou o benefício nos últimos doze meses. O método atribui a cada benefício o valor que você pagaria por ele separadamente, e zera o que não foi usado. Sala de espera acessada quatro vezes no ano tem valor real; a mesma sala nunca acessada vale zero, por mais destaque que tenha no material do banco.

É melhor pontuar em programa de banco ou direto na companhia aérea?

O programa de banco preserva a escolha do destino até o dia da emissão e dá acesso a transferência bonificada. O depósito direto no programa aéreo elimina uma etapa e fixa o destino, o que vira desvantagem se a tabela de resgate daquele programa piorar na sua rota.

Dá para negociar a anuidade do cartão?

Costuma dar, por quatro caminhos: volume de investimento na instituição, gasto mínimo mensal, negociação de retenção no pedido de cancelamento e convênios de folha. Confirme a condição por escrito, com prazo, e refaça a variável 2 do método, porque anuidade zero muda o ponto de cruzamento por inteiro.

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